Não há nenhuma Bíblia ou enciclopédia para o BDSM. Muitos de seus conceitos, valores e simbologias são subjetivos e variam de indivíduo para indivíduo, sendo debatidos incessantemente no meio por inúmeras opiniões e interpretações divergentes que emergem.

Não obstante, o BDSM evoluiu e amadureceu, atingindo atualmente o status de ‪#‎subcultura‬, à medida que pode ser caracterizado como um conjunto de particularidades culturais de um grupo de indivíduos que se distancia do modus operandi social, porém sem se desprender dele. Mas o que une tal grupo? Quais são tais particularidades? Enfim, o que é o BDSM?

BDSM é a sigla para ‪#‎Bondage‬ e ‪#‎Disciplina‬ (B/d), ‪#‎Dominação‬ e ‪#‎Submissão‬ (D/s), e ‪#‎Sadismo‬ e ‪#‎Masoquismo‬ (S/m). Tais conceitos referem-se a interações afetivas, evidenciando a dualidade do tipo de relação interpessoal entre as duas ou mais partes que compõem a interação.

Estas interações são consideradas afetivas não por implicarem a necessidade da realização do ato sexual, mas sim por serem de natureza erótica, ou seja, por possuírem estímulos e prazeres de naturezas sexuais sem que seja necessário o ato sexual em forma explícita (mas não excluindo-o). Assim:

Bondage e Disciplina (B/d): É a interação no qual se aplica um conjunto de práticas e técnicas que visam à restrição de movimentos ou imobilização para prover prazer sexual.

Dominação e Submissão (D/s): É a interação na qual se estabelece um vínculo hierárquico com ampla desigualdade entre os parceiros, com o objetivo de se obter prazer sexual.

Sadismo e Masoquismo (S/m): É a interação na qual há a manipulação da dor física e psíquica, transmutando-a em prazer sexual.

O objetivo principal de cada um dos três tipos de interações é a evidente obtenção de prazer, sem a obrigatoriedade de se consumar o ato sexual. Na busca por este objetivo, pode-se observar que surge uma convergência entre elas: a tensão psicológica que se estabelece entre os parceiros, formando uma hieraquia transparente e bem delineada, às vezes caracterizada pelo dualismo onipotência-impotência, às vezes pelo superioridade-inferioridade.

Tal tensão psicológica é o principal (mas não único) motivador e meio de obtenção do prazer em quaisquer destas interações; é o ‘‪#‎fetiche‬ primordial’ do BDSM. Mas o que é um fetiche?

“Fetiche é um desvio do interesse sexual para algumas partes do corpo do(a) parceiro(a), para alguma função fisiológica, para cenários ou locais inusitados, para fantasias de simulação de eventos ou de interpretação de papéis, ou para objetos inanimados.”

Ou seja, pode-se afirmar que o BDSMer (praticante de BDSM) é um fetichista, mas o contrário não é, necessariamente, válido. O fetichismo é mais abrangente, enquanto que o BDSM pode utilizar-se de um (pelo menos um, o ‘fetiche primordial’) ou de vários outros fetiches (simultaneamente ou não) para se caracterizar.

O que caracteriza, então, tal ‘fetiche primordial’? Como observou Foucault, toda interação interpessoal, inclusive a afetiva, é uma relação de poder, ou seja, há uma disputa incessante pelo espaço necessário para exercer o seu livre-arbítrio e tomar suas próprias decisões.

No entanto, nem sempre há a consciência disso e tal disputa frequentemente torna-se velada. Nas interações entre BDSMers, os parceiros possuem ciência da existência de tal disputa e a principal evidência disto é a hierarquia que se procura estabelecer entre eles.

Já que não é pré-estabelecida (ou seja, não é algo natural, intrínseco – aplica-se aqui o conceito de liberdade sartriana), tal hierarquia deve e é sempre baseada e regida pelo princípio da consensualidade. Afinal, sem a consensualidade entre as partes, o BDSM não passaria de mais uma forma de manifestação de violência e violação dos direitos de outrem.

É, portanto, a consensualidade entre as partes que torna esta recém-estabelecida hierarquia transparente e objetiva, interrompendo as constantes disputas por espaço, na medida em que se restringe ou suprime o livre-arbítrio de uma(s) das partes (seja para decidir coisas simples do dia-a-dia, seja apenas na cama). Porém, não há de fato uma restrição ou supressão.

Respeitando-se o princípio da consensualidade, o que de fato acontece é a transferência ou abdicação de toda ou parte da capacidade decisória de uma das partes. É este fenômeno que caracteriza a tensão psicológica mencionada anteriormente, a que nomeamos de ‘fetiche primordial’ (o fetiche comum, mas não necessariamente único, dos BDSMers).

Concluindo, pode-se chegar a uma definição ampla e ao mesmo tempo precisa do BDSM:

O BDSM é uma subcultura fetichista na qual há interações afetivas em que a transferência ou abdicação de toda ou parte da capacidade decisória de um dos parceiros se torna evidente e consensual, seja momentânea ou definitivamente

Créditos e autoria : Daniel Lima da pagina:   />

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